sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Deus, ou seja, a natureza! Espinoza
Afinal, o que dissera o jovem Espinosa - em 1656 - o que escrevera o filósofo - em1670 - e o que deixara escrito - em 1678 - para que fosse expulso da comunidade judaica e condenado pelas autoridades cristãs? Que se passa no século XVII para que seu pensamento seja considerado como veneno, blasfêmia e abominação? Por que alguns leitores, seus contemporâneos afirmam estar diante de "nova encarnação de Satã" e que seu nome, Benedictus, em latim, deveria ser mudado para Maledictus? Sobretudo, porque, diferentemente de outros contemporâneos seus, como Galileu, Descartes e Hobbes , cujas obras também foram condenadas como perigosas para a ordem estabelecida.
Espinosa não foi execrado apenas por autoridades políticas e eclesiásticas, e sim também pelos próprios filósofos e cientistas de seu tempo? Poucos pensadores foram tão odiados quanta ele. No entanto, poucos também tem sido tão admirados e amados quanta ele. Que há em seu pensamento para que ninguém se sinta indiferente ao lê-Io? Por que, ao ser lida a obra, o homem Espinosa se faz tão presente e suscita sentimentos e ideias tão contrários?
Durante os séculos XVII,XVIII e XIX, Espinosa foi aquele de quem não se devia falar ou aquele que devia ser atacado, mesmo e sobretudo sem que sua obra fosse lida. "Espinosismo" e "espinosista" tornaram-se palavras acusatórias. No entanto, ao mesmo tempo, sua obra não cessou de exercer uma atração insuperável, como se por ela passasse a decisão fundamental da filosofia moderna. Atração de tal modo forte que, a um jovem discípulo que começaria a ler a Ética e fora tornado de dúvidas, seu mestre, o teólogo Padre Malebranche (1638-1715), recomendava que não a lesse, porque "é maquina infernal" e aquele que nela penetra é sequestrado por suas engrenagens, não podendo nunca mais libertar se dela. Atração tão poderosa que, no século XIX, o filósofo Hegel dirá que a modernidade filosófica começa com Espinosa e que sem ele nenhuma filosofia é possível.
A inovação espinosana aparece num conjunto de teses que serão minuciosamente demonstradas pelo filósofo. Que demonstra ele?
1. Que Deus e a Natureza são uma só e mesma coisa - Deus sive Natura ("Deus, ou seja, a Natureza").
2. E, portanto, que Deus não é um super-homem dotado de entendimento onisciente nem vontade onipotente, não age tendo em vista fins misteriosos e não é, como crê a imaginação supersticiosa uma pessoa transparente, monarca do universo e juiz do homem.
3. Que o homem é livre não porque seria dotado de livre arbítrio para escolher entre alternativas igualmente possíveis, mas por ser uma parte da Natureza divina, dotado de força interna para pensar e agir por si mesmo.
4. Que a religião é um impulso natural para dar sentido ao mundo e a vida humana, servindo de consolação para a alma dos devotos, e reduzindo-se a dois preceitos universais muito simples: Crer na existência de um Deus bom e justo; amar a Deus e ao próximo. Por esse motivo, a verdadeira religião é uma relação espiritual entre a consciência individual e a divindade, dispensando aparato de igrejas as e teologias.
5. Que o poder político não nasce de um contrato social das vontades individuais, mas da força coletiva da massa reunida num ato de decisão pelo qual institui a si mesma como sujeito político detentor do poder; que esse poder é civil, não podendo jamais subordinar-se ao poderio religioso teleológico, sob pena de transformar-se em tirania sobre os corpos e espíritos.
6- Que, portanto, a teologia difere da política e difere também da filosofia. Esta última é um saber livremente buscado pela razão humana, enquanto aquela forja mistérios revelados por Deus que não poderiam ser conhecidos por nosso entendimento. Em outras palavras, a teologia é uma ausência de saber verdadeiro que pretende conseguir a obediência e submissão das consciências a dogmas indemonstráveis sendo por isso mesmo um poder tirânico e não um conhecimento.
Com essas teses, a filosofia de Espinosa se apresenta como um divisor de águas entre a liberdade (de pensamento, de expressão e de ação) e a servidão (ética, política e teológica). Nisso reside seu enorme perigo para as ideias vigentes e os poderes estabelecidos. Por abalar poderes e pensamentos instituídos, a obra espinosana foi lida, no correr dos três últimos séculos, de uma maneira que a fez parecer contraditória em si mesma, quando, na realidade, contradiz o estabelecido. Por essa razão, tem sido interpretada de formas tão variadas que parece impossível capta-Ia como filosofia coerente au dotada de alguma identidade.
No século XVII, lida como a mais perniciosa forma de ateísmo por afirmar a identidade entre Deus e Natureza, foi considerada fatalista porque demonstra que a realidade é regida por leis universais, necessárias, imutáveis e eternas, as quais os seres humanos também se encontram submetidos, pois a noção de livre-arbítrio é ilusória sinal de nossa ignorância quanta as causas necessárias que determinam nossas ações, ideias e desejos. Horrorizados, os leitores cristãos declararam que a obra espinosana retira a liberdade de Deus (pois Este se confundiria com as leis necessárias da Natureza) e a responsabilidade do homem (pois este simplesmente seguiria o curso necessário das leis naturais). No primeiro caso, teriam desaparecido as ideias de Providência divina e de milagre; no segundo, as de recompensa e castigo numa vida futura. No seculo XVIII, porém,a afirmação de Espinosa "Deus ou
Natureza" leva a interpretar e a valorizar sua obra como primeira doutrina sistemática do deísmo,ou religião natural, defendida pelo racionalismo da ilustração.
Para os deístas, Deus é a força racional e necessária que rege a realidade segundo leis inteligíveis conhecidas pela filosofia e pela ciência, dispensando os mistérios teológicos e religiosos. Sob esse ponto de vista, Espinosa surgia como precursor da verdadeira racionalidade moderna. A partir do Romantismo, no
entanto, o século XIX considerou Espinosa, nas palavras do poeta Novalis, "0 homem embriagado de Deus" e sua obra, a forma mais profunda do misticismo panteísta, porque, identificando Deus e Natureza, prometeria a felicidade do sábio como fusão de nossa alma no seio do absoluto divino. Espinosa não seria um naturalista, como pretendera a ilustração, mas um espiritualista, e o maior de todos. Simultaneamente, porém, a filosofia do Idealismo alemão conservou a interpretação da obra tal como fora feita no século XVII: 0 espinosismo seria um ateísmo fatalista que torna impossível tanto a liberdade e onipotência misericordiosa de Deus quanto o livre-arbítrio do homem. Espinosa seria um naturalista e sua obra, um "frio materialismo".
Eis por que, em nosso século, a obra espinosana, interpretada de inúmeras maneiras, foi, na maioria das vezes, considerada incoerente e contraditória, carregando em seu interior restos de filosofias opostas, isto é, restos de espiritualismo místico e de naturalismo materialista. Fundamentalmente, tem sido considerada inconsistente porque pretenderia conciliar duas perspectivas inconciliáveis: a de uma filosofia da Natureza, na qual esta é entendida como sistema da necessidade absoluta, e como filosofia ética baseada na plena liberdade humana, reunindo, assim, duas ideias que se excluiriam reciprocamente, a de necessidade (das leis da Natureza) e a de liberdade (como escolha entre várias alternativas possíveis . Por que inconciliáveis? Porque dizem os intérpretes se tudo segue leis necessárias, nada há no mundo que possa ser tido como meramente possível, e sem a ideia de possibilidade não pode haver a liberdade. Todavia, se nos acercarmos da filosofia espinosana sem ideias pré-concebidas, descobriremos por que, afinal, Espinosa foi excluído da comunidade judaica, da sociedade cristã e da república dos sábios "coerentes".
Sua obra faz desabar os ares que sustentam a superstição religiosa, a tirania política e a servidão ética. Ao fazê-Io, põe em questão as imagens tradicionais de Deus, da Natureza, do homem e da política que serviam de fundamento à religião, à teologia, à metafisica e aos valores ético-políticos da cultura judaico-cristã, isto é, da cultura ocidental. E o radicalismo da razão livre e da alegria de pensar sem submissão a qualquer poder constituído seja este religioso, político moral ou teórico e a decisão de afastar tudo quanto nos cause medo e tristeza que torna Espinosa perigoso e odiado, para uns, mas também tão amado, para outros.
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